Canabidiol foi liberado, mas a maconha não

09/02/15

Com a notícia de que o Canabidiol foi liberado, muitas crianças serão beneficiadas, mas começo a escutar que muitas outras não diminuíram suas convulsões com este derivado da maconha. Precisamos aperfeiçoar nossos estudos científicos, pois medicina é assim mesmo: há trabalhos que poderão encontrar melhora e outros não.

Minha preocupação como pediatra do HU USP e responsável muitas vezes pela questão das drogas na Sociedade Brasileira de Pediatria é de que muitos jovens hoje querem justificar o uso da maconha pela sua “ação medicinal”.

Nas escolas públicas da região do Butantã em São Paulo, aos 17 anos 25% dos jovens estão fumando (dado superior do índice de 12% de adultos fumantes no último vigitel – levantamento por telefone), 59% estão usando bebida alcoólica, 20% estão usando maconha e 5% já experimentaram o crack (dados de 2013 em fase de publicação em revista científica).

Na pediatria já falávamos que o tabagismo era uma doença pediátrica. Hoje falamos que o tabagismo, o álcool e a maconha são doenças pediátricas, pois já se inicia o uso aos 10 anos de idade. Não confunda Canabidiol com maconha.

Nas unidades médicas específicas usamos a morfina, derivado da Heroína para diminuir a dor em situações de emergência. Ninguém utiliza a heroína e sim uma parte dela, a morfina que foi devidamente estudada. O mesmo deverá ocorrer com o Canabidiol e a maconha.

Nos EUA tivemos “epidemia de dor crônica” que justifica conseguir a droga dita medicinal. O mesmo ocorreu com a maconha recreacional. Quando se perguntou  ao Dr Fergusson da Nova Zelândia num congresso sobre maconha da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e outras Drogas) qual a opinião dele sobre a descriminalização da maconha no Uruguai, ele deu uma resposta vazia. Pressionado sobre ter uma posição sobre o assunto, ele disse:

-Meu filho, o mundo não é nem branco e nem cinza. O mundo tem vários tons de cinza. Na verdade ele quis dizer que estamos num momento de avaliar estas medidas do Uruguai e dos EUA, quanto a sua eficácia jurídica e na diminuição da dependência.

Do ponto de vista médico, precisamos esclarecer que 30% de quem usa a maconha tem dependência e 1 % terá surto psicótico. Muitas vezes o álcool e a maconha são a porta para o crack, já que na Cracolândia, a maioria dos indivíduos tem dependência das 3 drogas citadas. Ter num consultório pediátrico 6 comas alcoólicos aos 14 anos de idade e 4 internações de adolescentes com surto psicótico em 2 anos é demais!!!

Com a descriminalização das drogas diminui-se os problemas policiais e jurídicos, mas aumenta-se os problemas médicos. Com a diminuição do medo das drogas aumenta-se o consumo, aumentando-se a dependência e doenças relacionadas ao uso da droga.

O uso da maconha até os 17 anos de idade está muito perto do uso do tabaco entre os jovens da região do Butantã, em São Paulo.

Portanto, que fique claro: liberar o Canabidiol sim, mas a maconha, por enquanto ainda não!

dr-joao-paulo
João Paulo Becker Lotufo
Médico pediatra da SBP, SBPT e SPSP, responsável pelo projeto antitabágico do HU USP
Responsável pelo projeto Dr BARTÔ, de prevenção de drogas no ensino fundamental e médio